Contradições, ambiguidades, metáforas

interview for Tecnography- Arte e reflexão - November 2015

tecnograpgy:  Como definiria o seu trabalho nas artes visuais?

Paula Rosa: Há já vários anos que reparto a minha actividade pelas artes visuais e pelo design industrial. A experiência da liberdade associada à dimensão expressiva, subjectiva, por um lado, versus a disciplina e o rigor que exige a metodologia projectual. Tem sido, portanto, um percurso marcado por uma certa dualidade, uma divisão por campos aparentemente opostos, que exigem posturas e disponibilidades diferentes, mas que frequentemente se intersectam e acabam por se reflectir no meu trabalho como um todo.

Cedo se tornou claro para mim que a arte era um “modo” privilegiado de me conectar com o meu “self”, com todo o potencial energético da psique, com os mistérios do subconsciente mas também com o mundo que me rodeia. De um modo geral, o meu trabalho nas artes visuais é motivado, acima de tudo, por uma busca incessante por auto-conhecimento, mas também pelo conhecimento em geral e pela Humanidade. A temática, por assim dizer, emana da minha procura obsessiva por respostas, mas sobretudo das minhas interrogações, preocupações e das abordagens que considero fundamentais e urgentes.

É um trabalho bastante conceptual, aberto, em permanente actualização e evolução, à semelhança de mim própria enquanto ser humano, como não poderia deixar de ser.

Ainda que considere que o modus-operandi esteja longe de definir eficazmente o meu trabalho, para realizá-lo, o que tenho feito ao longo de quatro décadas, recorro a uma multiplicidade de técnicas e ferramentas, desde as tradicionais às mais recentes tecnologias. Deste ponto de vista, é um trabalho bastante variado. Tenho uma tendência para “subverter” a função óbvia e imediata das ferramentas e testo frequentemente os seus limites, pratico combinações técnicas bastante improváveis e tenho mesmo fabricado algumas das ferramentas que utilizo.

 

tecnograpgy:  Cenas surreais, como sonhos, em preto e branco aparecem com frequência na sua arte. Como surgem essas imagens?

 

Paula Rosa: A Humanidade, a sua essência, e enfim, a sua condição, sempre me fascinaram. Apaixonei-me, desde muito cedo, e desconfio que de modo irreversível, pelos mistérios da mente e, consequentemente, pelos amplos e diversificados campos das Ciências Humanas, de Comportamento e Sociais, especificamente pela Psicologia, Sociologia e Filosofia. Leio bastante, mas observo e reflicto ainda mais. O Homem, nas suas múltiplas dimensões é tema central e recorrente no meu trabalho, que encaro como um processo capaz de “exorcizar” as minhas interrogações, cristalizar as minhas reflexões e, enfim, revelar aquilo que eu sou. E eu “sou” e “tenho sido”, também, num cenário marcado pela prevalência daqueles temores ancestrais, como o medo da morte por exemplo, arrastados para tempos de aparente cataclismo das sociedades, expostos a ventos fortes que são prenúncio de um apocalipse auto-induzido. Uma abordagem bipolar, paradoxalmente distópica e utópica.

 

A transferência de tudo para imagens é uma dinâmica fascinante que, felizmente, acontece sem que tenha que perceber completamente como nem porquê. As associações acontecem, num plano praticamente insondável, e explodem em formas, analogias, contradições, ambiguidades, exactidões, alegorias, metáforas e tudo o que de aleatório ou estratégico advier num dado momento.

Quase sempre, é uma revelação para mim própria, o que faz com que frequentemente me deixe seduzir pela imagem “terminada” e “mergulhe” na sua interpretação, na interpretação do meu ser. A criação artística como os sonhos parece ter a capacidade de nos proporcionar um conhecimento único de nós próprios, que, de outro modo, permaneceria na mais completa escuridão. É um processo bem mais fácil, mas nem sempre agradável, de ser vivenciado do que propriamente traduzido por palavras.

 

tecnograpgy: Mistura muitas técnicas em suas criações. Como é este processo? Existe alguma regra? Algum limite?  

 

Paula Rosa: Uma construção, uma composição, passa por constantes tomadas de decisões, às quais não pode ficar alheia a escolha das técnicas, das ferramentas e do modo de as utilizar e até de as transcender.

Recorro, por norma, às técnicas e ferramentas que creio servirem melhor o meu propósito num determinado momento e para um determinado trabalho. Actualmente, tenho utilizado bastante técnicas mistas digitais. Componho em Photoshop, com fragmentos de imagens fotográficas, pintura e desenho, que realizo em suporte digital ou a carvão, grafite e tinta-da-china sobre uma variedade de suportes. Tenho incorporado também elementos que resultam da digitalização directa, de fotogramas, fotografia analógica e pin-hole dos mais variados objectos, fragmentos de objectos, cenários e texturas. Muitas vezes, intervenho plasticamente sobre as superfícies impressas e volto a digitalizá-las e trabalhá-las em Photoshop. Tenho incorporado imagens fractais, gráficos vectoriais, 3D, som e movimento. Há toda uma dinâmica no frenético acto de criar que nos conduz também a explorar uma série de possibilidades e a transcender tudo.

 

A existir uma regra, seria a de não me impor quaisquer limites. A existir um limite, seria, inevitavelmente, a excepção à regra.

 

tecnograpgy: Suas influências visuais vêm de onde?

 

Paula Rosa: Falar de influências visuais implica, enfim, ser capaz de estabelecer uma relação com algo que existe ou que foi criado, apreendido, interpretado, muitas vezes distorcido, metamorfoseado, acrescentado.

Implica compreender que, inevitavelmente, somos influenciados por tudo o que nos rodeia, quer queiramos ou não, quer tenhamos ou não consciência disso. A influência dá-se, muitas vezes, por mecanismos inconscientes e subterrâneos, se quisermos recorrer a uma terminologia psicanalítica.

A verdade é que quando estamos “mergulhados” em processos criativos raramente nos perdemos nestas considerações. Acresce o facto de sermos “bombardeados” visualmente com quantidades de informação sem precedentes. Com o possível distanciamento e alguma dificuldade, creio que posso afirmar que as minhas influências visuais vêm de tudo aquilo que é capaz de atrair a minha atenção (se não também do que é capaz de me gerar indiferença), material ou imaterial. Tudo mesmo, sem excepção.

 

Tomo deliberadamente opções estéticas no meu trabalho e recorro a determinadas linguagens, não por acaso. São sempre elementos que utilizo, tal como as ferramentas, de modo a servir uma intenção, e não como um fim em si mesmas. Se elimino a cor, por exemplo, é porque a considero demasiado absorvente e distractiva no universo dos conceitos. A sobriedade e clareza com que muitas vezes me “falou” uma boa fotografia a preto e branco (e foram muitas vezes) talvez tenham delineado o trajecto que conduziu o meu trabalho a um conjunto de características visuais que ele apresenta hoje. Amanhã será provavelmente outra coisa, porque a experiência é obviamente contínua.

tecnograpgy: Você é da área do design, mas suas criações vão além. Como vê o design e a arte? Esses universos caminham separados ou podem se entrelaçar?

 

Paula Rosa: Tenho formação académica em vários ramos do design, nomeadamente em design industrial, de espaços, gráfico e de equipamento pedagógico. A minha formação artística é também fruto de aprendizagem académica mas é sobretudo pessoal, autodidata, e contínua. Não gosto e não posso misturar as coisas porque considero que existem diferenças importantes no modo como me predisponho e posiciono em cada uma delas, na metodologia, na finalidade. Considerando a minha actividade como um todo, as coisas intersectam-se inúmeras vezes e cada uma beneficia do conhecimento proveniente da outra. Porém, também divergem e são capazes de se colocar em campos quase opostos. Existem certos ramos do Design que estarão bem mais próximos da arte do que aqueles em que tenho desenvolvido trabalho. Actualmente, há formas de arte que são processos completamente indiferenciáveis do design. É toda uma nova ordem que emerge da abstracção contemporânea dos softwares, da tecnologia em geral, e que parece culminar numa espécie de fusão de tudo. Vivemos ainda, contudo, tempos de transição, e damos por nós com um pé no futuro e outro lá atrás, atolado no lamaçal das tradições. Parece-me seguro afirmar que Arte e Design vêem a sua definição em necessidade de permanente actualização, pelo facto dos seus limites serem frequentemente transpostos, em expansão, como é, aliás, característica dos universos.

 

tecnograpgy: É possível delimitar o que é design e arte nos dias de hoje?

 

Paula Rosa: Parece existir um sentido que aponta para a convergência, fruto dos processos tecnológicos, da consequente partilha dos meios de comunicação e produtivos e da sua disponibilidade na forma digital, quer para designers, quer para artistas. À medida que assistimos a um declínio do mundo material, a arte torna-se crescentemente participativa e interactiva e o campo de actuação do design expande-se para além das exigências da funcionalidade ligada à materialidade dos objectos. Neste contexto, quer a acção do designer, quer a acção do artista sobre o mundo é menos física e mais abstracta e comunicacional.

No entanto, há diferenças que continuam por diluir. A discussão tem-se arrastado no tempo e manter-se-á porque, quer “arte”, quer “design” carecem de uma definição definitiva. Na realidade, não podem tê-la porque estão em constante mutação e as suas fronteiras em permanente expansão.

 

tecnograpgy: As novas tecnologias facilitam a troca de experiências com pessoas que estão muito distantes. Na sua opinião, isso pode ser importante para um artista considerar novas visões?

 

Paula Rosa: A arte sempre reflectiu o artista e o tempo em que ele viveu. O facto é que passámos de uma cultura local para uma cibercultura, com todas as transformações que daí advêm. O modo como percepcionamos o tempo, o espaço, enfim, o mundo mudou radicalmente. A comunicação à escala global coloca-nos em contacto com a diversidade, com uma multiplicidade de disciplinas e culturas que, ao promoverem a combinação de conceitos, podem resultar em ideias extraordinárias - inspiração e criatividade. O contacto com pessoas que estão geograficamente distantes, muitas vezes inter-geracional, alarga o horizonte dos artistas, abre-lhes novas perspectivas e aumenta o conhecimento pessoal. Creio que todos nós seríamos pessoas diferentes se não tivéssemos tido as experiências que tivemos, conhecido as pessoas que conhecemos, aprendido o que aprendemos.

tecnograpgy: Teve alguma experiência nesse sentido: criar influenciada depois de uma conversa, por exemplo, ou então, experimentar o trabalho através de colaborações ou coletivos?

 

Paula Rosa: Sim, creio que acontece, na medida em que o trabalho é aquilo que eu sou e eu sou as experiências que vivo, o que inclui as conversas que tenho. Acontece, mas não imediatamente. Dou por mim a separar naturalmente o tempo em que estou activa na internet e o tempo em que estou a criar. No caso do meu trabalho visual, realmente preciso de um certo isolamento para desenvolvê-lo. Como diria Fernando Pessoa “Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho”. É um pouco isso que se passa comigo relativamente ao meu trabalho. É um processo muito introspectivo e solitário que, não raramente, me faz esquecer o tempo, até para me alimentar ou dormir, por exemplo. Não há tempo nem predisposição para as redes sociais, online ou off-line. Creio que familiares e amigos aprenderam a entender isso e não levam a mal quando eu “desligo” por dias ou semanas. Considero que há um período para “absorver”, um para digerir e outro para sintetizar.

 

A colaboração, de que tanto se fala, creio que existe sob diferentes formas e a diferentes níveis. Como designer, dada a multidisciplinaridade que a actividade exige, sempre tive essa experiência. No caso da minha pintura, por exemplo, tenho recebido bastantes convites para colaborações artísticas, nomeadamente exquisite-corpses. Tenho participado em alguns, reconheço que a experiência é sempre enriquecedora, mas confesso que não é muito confortável pelos limites que impõe ao tipo de trabalho que faço nessa área. Um tipo de projectos colectivos em que tenho participado, mais frequentemente, traduz-se num modo de colaboração em que cedo as minhas imagens, terminadas, para integrarem um projecto mais amplo, envolvendo o trabalho de outras pessoas, outros meios de exposição e outras formas de arte, projectos colectivos por natureza. Tenho colaborado com muitos artistas de vídeo, realizadores de cinema, músicos e editoras. Tenho desenvolvido trabalho colectivo, na verdadeira dimensão da palavra, sobretudo em vídeo, para companhias de teatro, Institutos de Ciência e uma série de associações ligadas à cultura.

 

tecnograpgy: O volume de compartilhamento de imagens dá-se de forma gigantesca em tempos de conectividade. Alguns críticos dizem que isso banaliza as artes visuais, concorda?

 

Paula Rosa: É um facto que as imagens nunca se fizeram tão presentes e tão imperativas. A linguagem visual é a linguagem actual por excelência, apresentando crescente significância na sociedade contemporânea. Somos bombardeados com imagens em praticamente todos os ambientes em que nos movemos e, neste sentido, navegar na internet não é muito diferente de caminhar numa grande cidade.

O acelerado desenvolvimento das mídias, aliado à internet e alimentado por um certo deslumbramento perante o potencial tecnológico têm conduzido a uma proliferação de imagens sem precedentes, o que obriga a uma permanente triagem e a um esforço acrescido da percepção. Se isso resulta numa banalização das artes visuais, francamente, não sei. Contudo, não é difícil perceber que, perante a quantidade de informação visual disponível, tendemos a tornar-nos muito menos analíticos e, neste contexto, sim, poderemos falar de uma certa banalização das artes visuais. Por outro lado, poderemos estar perante um fenómeno que trará algo completamente novo, que talvez nos obrigue, uma vez mais, ao debate estético e à revisão do próprio conceito de arte. Parece existir um processo que conduz à diluição das diferenças entre o artista dito profissional e o artista amador. A conectividade, especificamente através da internet, baralhou completamente o modo como criamos, difundimos, consumimos e percebemos a arte. Se, por um lado, assistimos a uma uniformização entediante, por outro, a proliferação de imagens também pode ser estimulante e fazer sobressair o que realmente consideramos que tem qualidade e mesmo revelar novos talentos, que enriquecerão o mundo das artes visuais.

 

tecnograpgy: E como vislumbra o futuro do design, das artes gráficas e da arte de uma forma geral?

 

Paula Rosa: O futuro, diria o poeta, “como em qualquer história inacabada, é um proeminente ponto de interrogação”. Difícil de prever mas, no curto prazo, relativamente fácil de imaginar, sobretudo porque à velocidade a que os avanços tecnológicos acontecem na actualidade, o futuro é já no próximo minuto.

 

Parece óbvio que o futuro da arte e o futuro da internet estão interligados, estando a segunda a revolucionar completamente a primeira e a colocar-lhe desafios constantes. Mas o inverso, também me parece verdadeiro. De facto, expandem-se, juntas, e alimentam-se uma da outra na procura constante por novas soluções e novos modos de criar.

 

Assistimos já, a uma fusão entre arte e design, a uma completa fusão das artes entre si e ao surgimento de formas de arte e design que são completamente novas. Estas transformações são possibilitadas pelos avanços da tecnologia, mas também pelo modo mais ou menos criativo com que nos relacionamos com ela. Acredito que o futuro da arte e do design dependerá muito do modo como venhamos a gerir esta relação. Porque quem cria tem uma espécie de curiosidade apaixonada por coisas novas, creio que assistiremos a uma liberdade cada vez maior nas escolhas, que resultará na proliferação de novas linguagens visuais (imateriais, telemáticas, holográficas, etc.), em contextos amplos, interactivos, crescentemente desafiadoras da tradição, dos nossos próprios conceitos, das nossas expectativas e crescentemente focadas nas interacções que se estabelecem entre os membros de uma rede.

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