Interviews

Interview for Espaço Exibicionista Gallery in the scope of Butterfly Defect solo show, 2018

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Interview for Tecnography -Arte e Reflexão magazine, 2016

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Interview for Terra Obscura, Arts & Literature magazine, 2015

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Frequently asked questions
Interview for Espaço Exibicionista Gallery, September 2018

1- Quem é Paula Rosa?

Quase cinco décadas de interrogações e reticências?...

 

2- Como defines o teu trabalho nas artes visuais?

É um trabalho em permanente actualização, como é, aliás, próprio do meu percurso como ser humano. São reflexões e emoções plasmadas num suporte.

 

3- De onde surgem as temáticas?

Nascem das minhas interrogações, preocupações e das abordagens que considero fundamentais e urgentes.

 

4- Cenas surreais, como sonhos, a preto e branco. Como surgem estas imagens?

É uma dinâmica fascinante que acontece, creio, num plano quase “insondável” e depois explode em formas, analogias, contradições, metáforas, alegorias ambiguidades, exactidões. Tudo, o que de aleatório ou estratégico advier num dado momento. Quase sempre, uma revelação para mim própria. Motivo pelo qual me deixo seduzir pela imagem “terminada”, mergulhando na sua interpretação – na interpretação de mim.

 

5- Misturas muitas técnicas. Como é este processo? Existe alguma regra? Algum limite?

Há toda uma dinâmica no acto de criar que me conduz a explorar todas as possibilidades e a transcender tudo. Tenho feito combinações improváveis e subvertido a função óbvia das ferramentas. Tudo é válido e útil, se servir uma intenção.

Componho muito em Photoshop, com recurso a imagens fotográficas (digitais, analógicas, pin-hole, fotogramas), pintura (em suporte digital ou tradicional), elementos que resultam da digitalização directa de texturas variadas e de objectos, gráficos vectoriais, imagens fractais, 3D, etc.

A existir uma regra seria a de não me impor quaisquer limites. A existir um limite, seria, inevitavelmente, a excepção à regra.

 

6- Para esta série de trabalhos elegeste o computador como ferramenta. Porquê?

Além da mente, é o que mais se assemelha a uma tela infinita. Gosto disso, em particular. Gosto também da possibilidade que oferece de fundir elementos de diversas proveniências. O computador é um fascinante conjunto de ferramentas, por assim dizer.

7- Quanto tempo, em média, demoras a realizar uma destas obras?

O todo, não consigo quantificar. Um tempo que inicia sem que eu saiba e que, por certo, terminará comigo. Pelo meio, para cada imagem, são necessários alguns meses de “materialização” num ambiente digital – qualquer coisa entre as 360 e as 420 chávenas de café, à razão de 6 ou 7 diárias.

8- Preto e branco, porquê?

Uma opção estética. Cores ou preto e branco, tal como as ferramentas, servem uma intenção (consciente ou inconsciente). Não sei se posso falar em “opção” neste caso particular. Surgiu tão naturalmente, sem que me perdesse em fórmulas e considerações. Fazendo agora esse exercício, acredito que, se elimino a cor, por exemplo, é porque a considero demasiado distrativa no universo dos conceitos que pretendo explorar. Desperta outras emoções. Afinal, conhecemos o mundo a cores, desde muito cedo. Nesse contexto, com a sua eliminação, creio que a abstração sai reforçada. O foco, nesta série de trabalhos, quero-o definitivamente no conteúdo. Em imagens nas quais utilizo as cores, faço-o exactamente do mesmo modo, servindo uma intenção, consciente ou inconsciente.

 

8- O que é a inspiração?

Misteriosa intermitência interior.

 

9- Como entendes a Arte?

Uma inquietação, simultaneamente agradável e incómoda, como cócegas na alma. Se as cócegas sobre a pele são uma espécie de autodefesa do corpo, as cócegas na mente serão como que uma autodefesa da alma (seja lá o que isso for). Creio que a arte tem a função catártica de purgar uma multiplicidade de emoções e transformá-las em algo elevado, que poderá ser transmitido numa linguagem universal.

 

10- Quem são as pessoas nas tuas imagens?

Reflexos.

 

11- Um futuro distópico?

Tópico!

 

12- Esta exposição tem soundtrack?

A minha vida tem. Música sempre, com sons e silêncios. Ouvi algumas coisas durante a criação destas imagens. Destaco Dead Can Dance e Hélder Bruno. “A Presença Serena e Terna” do meu querido amigo Hélder é uma presença constante na minha atmosfera de trabalho. Tem a magia de fazer fluir o pensamento e as emoções, de me recolocar num espaço que é o da minha humanidade e num tempo que realmente me importa - o momento presente.

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Contradições, Ambiguidades, Metáforas
interview for Tecnography, Arte e Reflexão. November 2015

TECNOGRAPHY:  Como definiria o seu trabalho nas artes visuais?

Há já vários anos que reparto a minha actividade pelas artes visuais e pelo design industrial. A experiência da liberdade associada à dimensão expressiva, subjectiva, por um lado, versus a disciplina e o rigor que exige a metodologia projectual. Tem sido, portanto, um percurso marcado por uma certa dualidade, uma divisão por campos aparentemente opostos, que exigem posturas e disponibilidades diferentes, mas que frequentemente se intersectam e acabam por se reflectir no meu trabalho como um todo.

Cedo se tornou claro para mim que a arte era um “modo” privilegiado de me conectar com o meu “self”, com todo o potencial energético da psique, com os mistérios do subconsciente mas também com o mundo que me rodeia. De um modo geral, o meu trabalho nas artes visuais é motivado, acima de tudo, por uma busca incessante por auto-conhecimento, mas também pelo conhecimento em geral e pela Humanidade. A temática, por assim dizer, emana da minha procura obsessiva por respostas, mas sobretudo das minhas interrogações, preocupações e das abordagens que considero fundamentais e urgentes.

É um trabalho bastante conceptual, aberto, em permanente actualização e evolução, à semelhança de mim própria enquanto ser humano, como não poderia deixar de ser.

Ainda que considere que o modus-operandi esteja longe de definir eficazmente o meu trabalho, para realizá-lo, o que tenho feito ao longo de quatro décadas, recorro a uma multiplicidade de técnicas e ferramentas, desde as tradicionais às mais recentes tecnologias. Deste ponto de vista, é um trabalho bastante variado. Tenho uma tendência para “subverter” a função óbvia e imediata das ferramentas e testo frequentemente os seus limites, pratico combinações técnicas bastante improváveis e tenho mesmo fabricado algumas das ferramentas que utilizo.

 

TECNOGRAPHY:  Cenas surreais, como sonhos, em preto e branco aparecem com frequência na sua arte. Como surgem essas imagens?

 

A Humanidade, a sua essência, e enfim, a sua condição, sempre me fascinaram. Apaixonei-me, desde muito cedo, e desconfio que de modo irreversível, pelos mistérios da mente e, consequentemente, pelos amplos e diversificados campos das Ciências Humanas, de Comportamento e Sociais, especificamente pela Psicologia, Sociologia e Filosofia. Leio bastante, mas observo e reflicto ainda mais. O Homem, nas suas múltiplas dimensões é tema central e recorrente no meu trabalho, que encaro como um processo capaz de “exorcizar” as minhas interrogações, cristalizar as minhas reflexões e, enfim, revelar aquilo que eu sou. E eu “sou” e “tenho sido”, também, num cenário marcado pela prevalência daqueles temores ancestrais, como o medo da morte por exemplo, arrastados para tempos de aparente cataclismo das sociedades, expostos a ventos fortes que são prenúncio de um apocalipse auto-induzido. Uma abordagem bipolar, paradoxalmente distópica e utópica.

 

A transferência de tudo para imagens é uma dinâmica fascinante que, felizmente, acontece sem que tenha que perceber completamente como nem porquê. As associações acontecem, num plano praticamente insondável, e explodem em formas, analogias, contradições, ambiguidades, exactidões, alegorias, metáforas e tudo o que de aleatório ou estratégico advier num dado momento.

Quase sempre, é uma revelação para mim própria, o que faz com que frequentemente me deixe seduzir pela imagem “terminada” e “mergulhe” na sua interpretação, na interpretação do meu ser. A criação artística como os sonhos parece ter a capacidade de nos proporcionar um conhecimento único de nós próprios, que, de outro modo, permaneceria na mais completa escuridão. É um processo bem mais fácil, mas nem sempre agradável, de ser vivenciado do que propriamente traduzido por palavras.

 

TECNOGRAPHY: Mistura muitas técnicas em suas criações. Como é este processo? Existe alguma regra? Algum limite?  

 

Uma construção, uma composição, passa por constantes tomadas de decisões, às quais não pode ficar alheia a escolha das técnicas, das ferramentas e do modo de as utilizar e até de as transcender.

Recorro, por norma, às técnicas e ferramentas que creio servirem melhor o meu propósito num determinado momento e para um determinado trabalho. Actualmente, tenho utilizado bastante técnicas mistas digitais. Componho em Photoshop, com fragmentos de imagens fotográficas, pintura e desenho, que realizo em suporte digital ou a carvão, grafite e tinta-da-china sobre uma variedade de suportes. Tenho incorporado também elementos que resultam da digitalização directa, de fotogramas, fotografia analógica e pin-hole dos mais variados objectos, fragmentos de objectos, cenários e texturas. Muitas vezes, intervenho plasticamente sobre as superfícies impressas e volto a digitalizá-las e trabalhá-las em Photoshop. Tenho incorporado imagens fractais, gráficos vectoriais, 3D, som e movimento. Há toda uma dinâmica no frenético acto de criar que nos conduz também a explorar uma série de possibilidades e a transcender tudo.

 

A existir uma regra, seria a de não me impor quaisquer limites. A existir um limite, seria, inevitavelmente, a excepção à regra.

TECNOGRAPHY: Suas influências visuais vêm de onde?

Falar de influências visuais implica, enfim, ser capaz de estabelecer uma relação com algo que existe ou que foi criado, apreendido, interpretado, muitas vezes distorcido, metamorfoseado, acrescentado. Implica compreender que, inevitavelmente, somos influenciados por tudo o que nos rodeia, quer queiramos ou não, quer tenhamos ou não consciência disso. A influência dá-se, muitas vezes, por mecanismos inconscientes e subterrâneos, se quisermos recorrer a uma terminologia psicanalítica.

A verdade é que quando estamos “mergulhados” em processos criativos raramente nos perdemos nestas considerações. Acresce o facto de sermos “bombardeados” visualmente com quantidades de informação sem precedentes. Com o possível distanciamento e alguma dificuldade, creio que posso afirmar que as minhas influências visuais vêm de tudo aquilo que é capaz de atrair a minha atenção (se não também do que é capaz de me gerar indiferença), material ou imaterial. Tudo mesmo, sem excepção.

 

Tomo deliberadamente opções estéticas no meu trabalho e recorro a determinadas linguagens, não por acaso. São sempre elementos que utilizo, tal como as ferramentas, de modo a servir uma intenção, e não como um fim em si mesmas. Se elimino a cor, por exemplo, é porque a considero demasiado absorvente e distractiva no universo dos conceitos. A sobriedade e clareza com que muitas vezes me “falou” uma boa fotografia a preto e branco (e foram muitas vezes) talvez tenham delineado o trajecto que conduziu o meu trabalho a um conjunto de características visuais que ele apresenta hoje. Amanhã será provavelmente outra coisa, porque a experiência é obviamente contínua.

TECNOGRAPHY: Você é da área do design, mas suas criações vão além. Como vê o design e a arte? Esses universos caminham separados ou podem se entrelaçar?

 

Tenho formação académica em vários ramos do design, nomeadamente em design industrial, de espaços, gráfico e de equipamento pedagógico. A minha formação artística é também fruto de aprendizagem académica mas é sobretudo pessoal, autodidata, e contínua. Não gosto e não posso misturar as coisas porque considero que existem diferenças importantes no modo como me predisponho e posiciono em cada uma delas, na metodologia, na finalidade. Considerando a minha actividade como um todo, as coisas intersectam-se inúmeras vezes e cada uma beneficia do conhecimento proveniente da outra. Porém, também divergem e são capazes de se colocar em campos quase opostos. Existem certos ramos do Design que estarão bem mais próximos da arte do que aqueles em que tenho desenvolvido trabalho. Actualmente, há formas de arte que são processos completamente indiferenciáveis do design. É toda uma nova ordem que emerge da abstracção contemporânea dos softwares, da tecnologia em geral, e que parece culminar numa espécie de fusão de tudo. Vivemos ainda, contudo, tempos de transição, e damos por nós com um pé no futuro e outro lá atrás, atolado no lamaçal das tradições. Parece-me seguro afirmar que Arte e Design vêem a sua definição em necessidade de permanente actualização, pelo facto dos seus limites serem frequentemente transpostos, em expansão, como é, aliás, característica dos universos.

 

TECNOGRAPHY: É possível delimitar o que é design e arte nos dias de hoje?

 

Parece existir um sentido que aponta para a convergência, fruto dos processos tecnológicos, da consequente partilha dos meios de comunicação e produtivos e da sua disponibilidade na forma digital, quer para designers, quer para artistas. À medida que assistimos a um declínio do mundo material, a arte torna-se crescentemente participativa e interactiva e o campo de actuação do design expande-se para além das exigências da funcionalidade ligada à materialidade dos objectos. Neste contexto, quer a acção do designer, quer a acção do artista sobre o mundo é menos física e mais abstracta e comunicacional.

No entanto, há diferenças que continuam por diluir. A discussão tem-se arrastado no tempo e manter-se-á porque, quer “arte”, quer “design” carecem de uma definição definitiva. Na realidade, não podem tê-la porque estão em constante mutação e as suas fronteiras em permanente expansão.

 

TECNOGRAPHY: As novas tecnologias facilitam a troca de experiências com pessoas que estão muito distantes. Na sua opinião, isso pode ser importante para um artista considerar novas visões?

 

A arte sempre reflectiu o artista e o tempo em que ele viveu. O facto é que passámos de uma cultura local para uma cibercultura, com todas as transformações que daí advêm. O modo como percepcionamos o tempo, o espaço, enfim, o mundo mudou radicalmente. A comunicação à escala global coloca-nos em contacto com a diversidade, com uma multiplicidade de disciplinas e culturas que, ao promoverem a combinação de conceitos, podem resultar em ideias extraordinárias - inspiração e criatividade. O contacto com pessoas que estão geograficamente distantes, muitas vezes inter-geracional, alarga o horizonte dos artistas, abre-lhes novas perspectivas e aumenta o conhecimento pessoal. Creio que todos nós seríamos pessoas diferentes se não tivéssemos tido as experiências que tivemos, conhecido as pessoas que conhecemos, aprendido o que aprendemos.

TECNOGRAPHY: Teve alguma experiência nesse sentido: criar influenciada depois de uma conversa, por exemplo, ou então, experimentar o trabalho através de colaborações ou coletivos?

 

Sim, creio que acontece, na medida em que o trabalho é aquilo que eu sou e eu sou as experiências que vivo, o que inclui as conversas que tenho. Acontece, mas não imediatamente. Dou por mim a separar naturalmente o tempo em que estou activa na internet e o tempo em que estou a criar. No caso do meu trabalho visual, realmente preciso de um certo isolamento para desenvolvê-lo. Como diria Fernando Pessoa “Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho”. É um pouco isso que se passa comigo relativamente ao meu trabalho. É um processo muito introspectivo e solitário que, não raramente, me faz esquecer o tempo, até para me alimentar ou dormir, por exemplo. Não há tempo nem predisposição para as redes sociais, online ou off-line. Creio que familiares e amigos aprenderam a entender isso e não levam a mal quando eu “desligo” por dias ou semanas. Considero que há um período para “absorver”, um para digerir e outro para sintetizar.

 

A colaboração, de que tanto se fala, creio que existe sob diferentes formas e a diferentes níveis. Como designer, dada a multidisciplinaridade que a actividade exige, sempre tive essa experiência. No caso da minha pintura, por exemplo, tenho recebido bastantes convites para colaborações artísticas, nomeadamente exquisite-corpses. Tenho participado em alguns, reconheço que a experiência é sempre enriquecedora, mas confesso que não é muito confortável pelos limites que impõe ao tipo de trabalho que faço nessa área. Um tipo de projectos colectivos em que tenho participado, mais frequentemente, traduz-se num modo de colaboração em que cedo as minhas imagens, terminadas, para integrarem um projecto mais amplo, envolvendo o trabalho de outras pessoas, outros meios de exposição e outras formas de arte, projectos colectivos por natureza. Tenho colaborado com muitos artistas de vídeo, realizadores de cinema, músicos e editoras. Tenho desenvolvido trabalho colectivo, na verdadeira dimensão da palavra, sobretudo em vídeo, para companhias de teatro, Institutos de Ciência e uma série de associações ligadas à cultura.

 

TECNOGRAPHY: O volume de compartilhamento de imagens dá-se de forma gigantesca em tempos de conectividade. Alguns críticos dizem que isso banaliza as artes visuais, concorda?

 

É um facto que as imagens nunca se fizeram tão presentes e tão imperativas. A linguagem visual é a linguagem actual por excelência, apresentando crescente significância na sociedade contemporânea. Somos bombardeados com imagens em praticamente todos os ambientes em que nos movemos e, neste sentido, navegar na internet não é muito diferente de caminhar numa grande cidade.

O acelerado desenvolvimento das mídias, aliado à internet e alimentado por um certo deslumbramento perante o potencial tecnológico têm conduzido a uma proliferação de imagens sem precedentes, o que obriga a uma permanente triagem e a um esforço acrescido da percepção. Se isso resulta numa banalização das artes visuais, francamente, não sei. Contudo, não é difícil perceber que, perante a quantidade de informação visual disponível, tendemos a tornar-nos muito menos analíticos e, neste contexto, sim, poderemos falar de uma certa banalização das artes visuais. Por outro lado, poderemos estar perante um fenómeno que trará algo completamente novo, que talvez nos obrigue, uma vez mais, ao debate estético e à revisão do próprio conceito de arte. Parece existir um processo que conduz à diluição das diferenças entre o artista dito profissional e o artista amador. A conectividade, especificamente através da internet, baralhou completamente o modo como criamos, difundimos, consumimos e percebemos a arte. Se, por um lado, assistimos a uma uniformização entediante, por outro, a proliferação de imagens também pode ser estimulante e fazer sobressair o que realmente consideramos que tem qualidade e mesmo revelar novos talentos, que enriquecerão o mundo das artes visuais.

 

TECNOGRAPHY: E como vislumbra o futuro do design, das artes gráficas e da arte de uma forma geral?

 

O futuro, diria o poeta, “como em qualquer história inacabada, é um proeminente ponto de interrogação”. Difícil de prever mas, no curto prazo, relativamente fácil de imaginar, sobretudo porque à velocidade a que os avanços tecnológicos acontecem na actualidade, o futuro é já no próximo minuto.

 

Parece óbvio que o futuro da arte e o futuro da internet estão interligados, estando a segunda a revolucionar completamente a primeira e a colocar-lhe desafios constantes. Mas o inverso, também me parece verdadeiro. De facto, expandem-se, juntas, e alimentam-se uma da outra na procura constante por novas soluções e novos modos de criar.

 

Assistimos já, a uma fusão entre arte e design, a uma completa fusão das artes entre si e ao surgimento de formas de arte e design que são completamente novas. Estas transformações são possibilitadas pelos avanços da tecnologia, mas também pelo modo mais ou menos criativo com que nos relacionamos com ela. Acredito que o futuro da arte e do design dependerá muito do modo como venhamos a gerir esta relação. Porque quem cria tem uma espécie de curiosidade apaixonada por coisas novas, creio que assistiremos a uma liberdade cada vez maior nas escolhas, que resultará na proliferação de novas linguagens visuais (imateriais, telemáticas, holográficas, etc.), em contextos amplos, interactivos, crescentemente desafiadoras da tradição, dos nossos próprios conceitos, das nossas expectativas e crescentemente focadas nas interacções que se estabelecem entre os membros de uma rede.

 
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Featured Artist: Paula Rosa
interview for Terra Obscura, Arte & Literature. August 2015

TERRA OBSCURA: Who are you?

I was born in Lisbon, Portugal, in 1970. I’ve been drawing, painting and creating in general, in a variety of media, as long as I can remember. I’ve always been a very solitary, introspective and almost obsessively reflective person, owner of what I may describe as a very inquisitive, torturous and disquieted mind. These character traits may partially explain the fact that I’ve always felt a strong impulse to create things and to express myself in a variety of ways, grabbing whatever tools suit my intentions.

I’ve developed an early interest for the visual arts and design, which proceeded naturally in my academic training, but also for non-visual arts, such as music and literature, and also for some branches of knowledge, such as Philosophy and Psychology, which I keep avidly exploring.

Absorbing, Imagining, creating and producing artistic output is something I can only conceive as part of being a human. Art is so deep-rooted in our nature that we cannot dissociate from it, at risk of feeling incomplete, if not null.

For some years, I’ve been dividing my activity by painting, photographing, experimenting with film animation and the rigorous discipline of designing spaces and equipment. It’s a dualistic option that has certainly marked my work and its route.

Through my painting, specifically, I believe I’ve been searching for answers but specially trying to raise fundamental and urgent questions. It has become clear to me that painting turned out to be my preferable way to connect with my inner self, my most subliminal thoughts, my subconscious and simultaneously with the world around me. All my life, I’ve been engaged in a search for knowledge and I really think we are, in fact, the answers we seek.

TERRA OBSCURA: Why is art important?

Art is not only important, it is essential. Those of us who repeatedly get deeply immersed in creative processes rarely stop and have the time to think about it but we can easily feel its benefits. Should be enough just to think that art has the cathartic function of purging the concerns, the fears, the anxieties and a variety of emotions and then the possibility to turn them into something higher - a sort of aesthetic value – capable to be communicated through an universal language, powerful enough to eliminate cultural, racial, educational and economical barriers.

I see it all as a magic process, a spectacular explosion of the imagination, which the result can produce, both in the author and in the viewers, a greater understanding of themselves, their feelings, and thus an expansion and regeneration of our self-awareness and consciousness. Isn’t that what Humanity has in fact been looking for since early times? We can then think of artists as relevant agents for the society, for our entire species and to the world in general.

TERRA OBSCURA: What is your duty or mission as an artist?

Being labeled as “an artist” since an early age and not being strange at all to the debate over the role of artists in our present societies, I, however, don’t feel, not even for a moment, a Chargé de Mission, in charge of any special mission, obligation or duty, different from other people who are not involved in the artistic creation. I am what I am and I do what I do specially for the love of it, if not for a personal psychological need. On the other hand, I obviously don’t disregard the importance of the social role of the artists, which has dramatically changed throughout History, in the present times. Their proximity to the collective context and engagement in the social process is obviously important. We all know that, more or less consciously, an artist is some sort of radar that captures the concerns of the society, documents them and ends up playing an important role in the collective awareness and consciousness. That’s why art has almost always reflected the time in which an artist lives.

In this context, I may feel as that radar, just like anyone else capable to communicate their concerns by whatever means they choose. We are all radars, in fact, and what may vary is the opportunity to communicate and expose our thoughts and ideas to a wider or a restricted audience.

TERRA OBSCURA: Tell me about your imagery.

Taking the concept of “imagery” out of the strict field of visual images and extending it to the field of perception, I believe I tend to recur more and more to the symbols, metaphors and allegories to express an idea. It’s normally a natural process, as I think it should be, and I never plan it and not even think of it. It just flows.

Our time appears to me as a time in which it is required to the artists to be ever more faithful and truthful to themselves, more and more original, at the same time that it makes perfect sense to appeal to the great ideals of our society. I may be moving somehow across these lines since I’m too aware of them to simply abstract and ignore them. Being truthful to themselves should be the main aim of artists and if there’s something I really want to preserve it is certainly this.

Our time also seems to be a time in which large capitalist societies and the development of science and technology over the matter, have gradually been reducing Man, himself, to matter – something that can not only be known but also manipulated. All these transformations have happened in a way that we, humans, no rarely seem to have forgotten important parts of ourselves: our epistemic, aesthetic and ethical dimensions. This has been a concern for me and I’ve the terrible habit of thinking about it. I believe though that it is through Art that Humankind is able to reaggregate all these fundamental aspects, to not lose track of what we really are.

Humans belong to a strange species, owner of an inquisitive mind, living in an exhausting condition by inhabiting a world of complex systems in permanent mysterious interactions. We’ve created a path and we keep leaving our marks on the universe. This idea is too scary and at the same time absolutely fascinating to simply be put aside and not be tempted to think of it.

Humankind, in general, the human condition and the human mind, in particular, have been at the centre of my interests and concerns, thus reflecting on my work, being recurrent themes in my painting.

No rarely, the visual imagery, points to timeless stories and absurd tenses, ranging from the ancestral concerns to the cataclysm of modern societies, on what seems to be the verge of a self-induced apocalypse. Dystopian or utopian vision? It’s all completely open to interpretation but specially for reflection, since it is a question and not a statement. In truth, it can only be like that since I believe that the future, as in any unfinished story, is nothing but a prominent question mark.